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A espiritualidade e o livre mercado

Em seu livro Homo Deus, Yuval Harari afirma que pela primeira vez na história, hoje, morre mais pessoas que comeram demais do que de menos; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas (por isso o forte impacto e nossa dor frente ao atual desafio: covid-19); e mais pessoas cometem suicídio do que todas as que as que somadas são mortas por soldados, terroristas e criminosos. Podemos dizer que, como espécie, experimentamos um “ápice”, que nos coloca até como um potencial perigo para nosso planeta. Isso é fato, apesar de percalços como o corona vírus.

O fator crucial para nossa conquista do mundo foi nossa capacidade de conectar muitos humanos uns com os outros. O Homo sapiens é a única espécie na Terra capaz de uma cooperação flexível e em grande escala.

Toda cooperação se baseia em conjuntos de regras que, a despeito de só existirem na nossa imaginação, acreditamos serem tão reais e invioláveis quanto a gravidade. Juntos, criamos uma rede de histórias, de significados que orientam nossos esforços conjuntos. Yuval ainda afirma que o livre mercado ou capitalismo racional é o sistema que por ser livre a circulação e o processamento de informações, é o modo de produção que mais promoveu a melhoria de nossa condição como espécie.

Weber, por volta de 1890, identificou um momento de nossa história que um conjunto específico de significados moldou a forma de produção para o que foi denominado capitalismo racional ou livre mercado, que teria ocorrido uns duzentos anos antes de sua análise. Nosso interesse por lucrar, vender com bons resultados não era algo novo, desde a Antiguidade fazíamos isso, nem mesmo a moeda era uma nova invenção e nem ainda havia as máquinas.

Segundo Weber, por volta do ano de 1680 surge uma “rede de crenças” (o puritanismo) que acreditava ser necessário ao homem viver de forma pura, uma conduta regrada pelo ideal de uma vida cotidiana sagrada. Assim, mentir, roubar, matar ou causar dano ao seu devedor ou credor, deveria ser evitado. A quantidade a ser  produzida de mercadorias não seria mais o suficiente para comer e ter um saldo para a bebida mas sim, em atender a necessidade do outro, servir o outro.  Os que aderiram a este conjunto de crenças passaram a ofertar uma variedade maior de produtos (como no caso de tecidos, estampas variadas), escutando os anseios do comprador, até então, pouco considerado. Esta mudança de conduta gerou uma mudança significativa no mercado. Surge um produtor, um fornecedor com um código específico de ética e que permite uma mudança nas taxas de juros (a confiança alcançada por este grupo, fez com que as taxas de juros baixassem), uma maior produtividade, treinamento dos empregados, intensifica-se a reflexão sobre a ética, com um grande legado para as gerações futuras. Antes mesmo da revolução industrial, é a revolução no nosso comportamento, que gera grandes transformações, moldando o que conhecemos como Civilização Ocidental.

Em muitos aspectos, a revolução gloriosa na Inglaterra e as bases da formação dos Estados Unidos trazem em sua origem,  este conjunto específico de crenças: na liberdade do indivíduo, no direita à vida e à propriedade privada. Naquele momento, expressando que um homem não poderia ser feito escravo de outro, a vida era um bem inalienável, nosso bem maior (não pertencente ao Estado, ao rei, a outro). A liberdade de escolher seu caminho, suas crenças, se reunir de forma livre, professar seu conjunto de ideias e princípios ( que não ferindo a vida, os direitos do outro, deveria ser respeitado). E por fim, o direito à propriedade privada,  expressão de justiça – segundo Yuval Harari, o valor mais caro a todos nós como espécie, forjado ainda no tempo das cavernas – aquilo que um homem semear, será digno de colher.

Weber tinha observado que quanto maior o vínculo com um compromisso espiritual – no caso a força da regra cristã – maior o impacto nos negócios. É interessante que Collins e Porras, séculos depois, observaram que as empresas com foco em valores, tinham resultados muito acima da média, é deste estudo que deriva o núcleo do planejamento estratégico.  Ao longo da história da Civilização Ocidental, foram os valores e a ética que moldaram nossa exitosa forma de produção e que levaram empresas a maiores níveis de confiança e produtividade.

Mas podemos olhar para esta tríade e considerá-la um tanto quanto individualista e egoísta para homens buscadores, com preocupações espirituais. Como ficariam a fraternidade? Ou mesmo a igualdade entre os homens? Esta é nossa próxima conversa.

 

 

 

 

 

Atuo na área de desenvolvimento de competências de liderança e empreendedorismo desde 2002, utilizando metodologias ativas que fortalecem a autorresponsabilização por meio de oficinas, palestras e cursos. Credenciada como facilitadora do Seminário Empretec e da ENAP (Escola Nacional de Administração Pública) há mais de dezoito anos. Sou formada em Engenharia Elétrica pela UnB, com formações em Gestão de Pessoas com base em competência, Coach (pela Sociedade Brasileira de Coaching) entre algumas outras. Entre clientes: Grupo InPress, Banco do Brasil, Sebrae Nacional, Sebrae DF, Sebrae AP, Sebrae MG, Almeida França Engenharia, IFCT/ Volta Redonda; CTIS, PGR, entre outros.